No último
domingo, dia 17 de agosto, fui ao Museu Histórico do Estado do Pará – MHEP,
para ver a exposição sobre a Bauhaus. Fotografias instigantes, algumas belas,
delicadas, sensíveis; outras, centradas no compromisso de registro, históricas.
Quando expomos
algo, necessariamente comunicamos alguma coisa; expor é comunicar. E para que
uma exposição complete essa função elementar, de comunicar, ela precisa ter uma
estratégia precisa do que pretende dizer sobre o acervo que está expondo.
Definir o público também é importante, mas em uma região relativamente árida dos
eventos culturais que circulam nos
grandes centros urbanos, esperamos que o que vá para um museu do Estado,
custeado com dinheiro público, seja acessível
ao maior número possível de pessoas.
No caso desta
exposição sobre a Bauhaus, a comunicação não foi feita. O acervo exposto
poderia cumprir sua função de informação, de contextualização, caso houvesse um
enredo, uma história contextualizada amparada por informação consistente. No
entanto, a exposição, apesar de distribuída adequadamente no espaço, não soube
explorar a pontencialidade do acervo, não desenvolvendo assim uma comunicação,
uma interação propositiva com o público visitante.
Nada, nenhum
texto da exposição, contextualiza adequadamente as imagens, assim como não
fornece um enredo para aquilo que é exposto, além de não acrescentarem
informações concretas sobre a Bauhaus e sua influência. São textos generalistas,
pois possuem frases que poderiam estar em qualquer exposição do gênero, ou então
são informações que, mesmo dentro do contexto da exposição parecem cair de
paraquedas, sem nada que as justifiquem e que as contextualizem.
Um exemplo:
No centro da representação da arquitetura ideal estava o homem moderno. Para ele é que a Bauhaus estabeleceu como objetivo a adequação de casas, apartamentos e objetos de uso. A partir do material e da função, as oficinas, que se denominavam “laboratórios” desenvolviam objetos voltados para o uso.
Para quem
conhece a Bauhaus a ideia é banal, mas para quem não conhece, o texto não diz
muito. Na segunda oração parece estar faltando um complemento: que adequação é
essa? Adequação em relação a que? Essa sensação de que falta um complemento se
radicaliza na frase seguinte: que uso? Quem usa? Para que usa? Como usa?
O importante é comunicar claramente, nada deve
ficar subentendido. Outro exemplo? Olhem só:
A Bauhaus é conhecida por seu foco em objetos: arquitetura Bauhaus, design Bauhaus e arte Bauhaus. Nesse contexto, o legado da instituição é inserido à força no museu, comercializado, fetichizado e, como tal, faz com que outras dimensões desse projeto de vanguarda tornem-se indistintas.Alguém entendeu alguma coisa? O que significa dizer que a Bauhaus é inserida à força no museu? Por que as outras dimensões da Bauhaus se tornam indistintas? O que, exatamente, quer dizer que tinha um foco nos objetos?
E não é só
por falta de clareza que os textos dessa exposição pecam. As citações não
trazem referências. Há aspas para todos os lados, mas nunca se sabe quem disse
o quê. E também tem o problema da disposição dos textos. Na última sala, onde
ocorrem duas projeções - um filme sobre
quotidiano de época (aliás, sem informação nenhuma) e um filme de entrevistas -
o texto que fala sobre as entrevistas está bem mais próximo da outra projeção, fato
que deixa deixando assim o visitante um pouco desorientado e que contribuindo
para o imbróglio na leitura da exposição.
A composição
expográfica dessa exposição, sem contextualização e sem construção objetiva,
leva o expectador a um não-conhecimento daquilo que está vendo. Não há
concatenação entre as informações visuais e a construção textual.
Outro fator que
prejudica a exposição é sua má iluminação. Algumas lâmpadas desligadas ou queimadas
prejudicavam a visualização das obras expostas. E essa deficiência prejudica
ainda mais os painéis de textos, feitos com tinta branca em fundo cinza claro –
difícil para todos e inviável para pessoas que sofrem de alguma dificuldade
visual.
Um visitante
sem a informação do que foi a Bauhaus e do que ela representa, sai da exposição
com a informação da existência que uma
Bauhaus existiu e nada, absolutamente, nada mais. Ou seja, ocorreu ai uma
não-informação. Zero de comunicação e zero de função educativa – função primordial de um museu público.
Expor por
expor... Seria essa a função de um museu? Um projeto expositivo deve ser norteado
por um formulação clara sobre o que será exposto, com as questões subsequentes
e necessárias sobre o para quem isso será exposto e qual objetivo da exposição.
Se essa
exposição foi feita para o público médio, que provavelmente não possui mais
informações sobre a Bauhaus, pode-se dizer que ela não acrescentou grandes
coisas – e que desinformou. Se ela foi pensada para um público seleto e de
especialistas – e se o foi é preciso dizer que é um absurdo fazer uma exposição
com um formato elitista numa cidade carente de exposições, como Belém - ela
também não acrescentou muito a esse eventual público, tal a qualidade da sua
comunicação.